sábado, 23 de julho de 2011

O amor mata.



Basta fechar seus olhos e sentir sangrá-los lentamente. Seja num abraço ou numa carícia, para fazer o momento valer à pena. O estiramento da sensação de liberdade, por um momento, numa troca inusitada de reações a um olhar, você se senti vivo e incapaz de reagir à dor da morte. Não é preciso muita experiência para sentir seu coração ser arrancado do seu peito. Na realidade, apenas algumas doses de ilusão ao contratempo já se tornam suficientemente inúteis. Simplesmente a dor parece cair melhor no encaixe de uma paixão. Não sentimos vida ou morte, prazer ou agonia, felicidade ou tristeza. Apenas continuamos com nossa overdose. Olhei então para minhas mãos, e elas pareciam sangrar. Surpreendentemente, meu amor caiu morto depois de fazer um pacto com o desconhecido. E partiu em direção ao nunca, tentando amenizar a culpa, seu único e conhecido sentimento. Ao perceber que meu amor iria me matar também, eu parti. Uma viagem ao mundo espectral, buscando e conquistando fardos. Sentia-me perdido e chorava. Corria e depois caía, só mais um motivo para me fazer sofrer. Tentei silenciar tudo o que conhecia. A música, a dor e até o próprio dom poderoso e convicto da palavra. Meus olhos ainda pareciam sangrar. Não conseguia enxergar ou sentir o que quer que fosse. Meu corpo já estava totalmente debilitado e confuso no meio daquilo, daquela trágica sensação de estar sem nada, sem ar ou vida. Foi então que eu percebi que eu estava amando alguém que por sinal também me amava. E todas as peças me levaram a uma chave, que não conseguia abrir nenhuma porta. Um toque de razão veio até mim e então cochilei na minha banheira. Foi nesse momento que eu percebi... O amor mata.

(Denis Scarpa)

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